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O fino humor de Chico
11/03/2010 | 10H23 | Adriana Braga em Coluna do Vilmar

por ADRIANA BRAGA
Muito já se falou do talento que Chico Buarque tem para entender e traduzir a alma feminina. "Olhos nos olhos" e "Atrás da porta" são exemplos de canções femininas. Chico também é constantemente lembrado como uma das vozes da resistência na época da ditadura, um dos mais perseguidos pela censura. "Apesar de você" e "Cálice" ficaram anos esperando sua liberação. Já "Vai passar" e "Pelas tabelas" tornaram-se hinos da campanha Diretas já.
Agora, não é muito comum ouvir “teses” e “dissertações” sobre o humor na música de Chico. Às vezes, o humor aparece sutilmente, em um uma única frase...
“Não sou ladrão, eu não sou bom de bola
Nem posso ouvir clarim” ("Até o fim", 1978)
Outras vezes o humor é um pouco cruel...
“Orgulho dos meus pais
E dos filhos meus
Ninguém me tira nem por mal
Mas posso vender
Deixe algum sinal” ("Bancarrota blues", com Edu Lobo, 1985)
Em algumas canções fica a impressão do humor, mesmo que não seja possível identificar onde está o verso mais engraçado. Como no caso de "Iracema voou" (1998), que fala sobre uma jovem que vai viver na América... América é um anagrama de Iracema, que como “a virgem dos lábios de mel” de José de Alencar, é do Ceará, ela “não domina o idioma inglês” e talvez por isso “tem saído ao luar, com um mímico”...
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Algumas canções são divertidas por completo... Em "Biscate" (1993), a discussão do casal por ciúme e pelo dinheiro curto pode ser resumida em: “Andas de pareô, eu sigo inadimplente”. Já "Grande hotel" (com Wilson das Neves, 1997), trata do reencontro de um casal...
“Quando eu pensava em dormir
Tu chegas vestida de negro
Vens decidida a bulir
Com quem está posto em sossego”
Mas são inúmeras as músicas que provocam sorrisos ao serem ouvidas.
Talvez o lado humorístico do compositor seja genético. No documentário de Nelson Pereira dos Santos sobre Sérgio Buarque de Holanda (o pai de Chico), as brincadeiras do historiador são citadas por vários entrevistados. Ao falar sobre sua relação com Chico Buarque nos anos 1960, Caetano Veloso em seu livro Verdade tropical descreve o amigo como “dono de um humor mais sádico do que o de Capinam”. E completa contando a história que Chico inventou ao seu respeito. Voltando de uma viagem do Rio de Janeiro, ele espalhou entre os amigos de São Paulo, que Caetano havia enlouquecido, chegando a ser internado em um sanatório, onde teria recebido Maria Bethânia aos berros de “Sai, carcará! Sai carcará!”. Quando Caetano veio à capital paulista estranhou a forma com que todos o recebiam. Até que Toquinho percebeu a armação de Chico.
“Que filha, visita a família em Sampa
Às pampa, às pampa
Voltou toda descascada” ("A rosa", 1979)
Chico também gosta de inventar personagens. Com Toquinho criou, por exemplo, o jogador de futebol Dorvalzinho e o índio Jururu. Mas, o mais famoso é Julinho da Adelaide, morador da Rocinha e compositor de "Acorda amor", "Jorge Maravilha" e "Milagre brasileiro". Julinho da Adelaide foi a forma bem-humorada que Chico encontrou de enganar a censura para que suas músicas fossem liberadas. O personagem chegou a dar uma longa entrevista ao jornalista Mário Prata para o jornal Última hora.
“São os homens
E eu aqui parado de pijama
Eu não gosto de passar vexame
Chame, chame, chame
Chame o ladrão, chame o ladrão” ("Acorda amor", de Leonel Paiva e Julinho da Adelaide, 1974)
E antes que digam que esse tipo de brincadeira é uma atitude do passado, “da juventude”, basta assistir ao making of do DVD Uma palavra (com direção de Roberto Oliveira, 2006), que foi gravado em Lisboa, Paris e Budapeste. Nele, há uma cena em que na rua, Chico é abordado por várias pessoas que o reconhecem e por três jovens, que querendo saber de quem se trata, perguntam o seu nome. E ele responde: “Zico” e explica que é um famoso jogador de futebol que “jogava no Barça há 15, 20 anos”.
Para terminar, cito os versos de "Injuriado" (1998), que é uma das minhas preferidas, ao lado de "Grande hotel":
“Dinheiro não lhe emprestei
Favores nunca lhe fiz
Não alimentei o seu gênio ruim
Você nada está me devendo
Por isso, meu bem, não entendo
Porque anda agora falando de mim”
O titular desta coluna, Vilmar Bittencourt, também tem sua passagem preferida:
“Parte tranquilo, ó irmão
Descansa na paz de Deus
Deixaste casa e pensão
Só para os teus
A criançada chorando
Tua mulher vai suar
Pra botar outro malandro
No teu lugar” ("Vai trabalhar vagabundo", 1975)
Com mais de trinta
26/09/2009 | 07H34 | Vilmar Bittencourt em Coluna do Vilmar
Em recente entrevista à Rádio Cultura Brasil, Zélia Duncan focalizou a geração de cancionistas da qual faz parte. Duncan destacou três de seus colegas que, como ela, estrearam em discos-solos por volta ou depois dos trinta anos de idade. Para cantora e compositora, Lenine, Chico César e Zeca Baleiro chegaram ao primeiro disco convictos dos caminhos a percorrer na carreira discográfica iniciada, em termos, tardiamente. Ao ser lembrada que havia um caso parecido e que se tratava de Angela Ro Ro, Zélia comentou: “Esta estreou lindamente, que disco lindo!”. A comprovação do apreço que Zélia Duncan tem por Angela Ro Ro, álbum lançado em 1979, está no fato de ter gravado, ao vivo, junto de Simone um dos temas confessionais que RoRo lançou há 30 anos, quando ela própria estava por entrar numa nova década de sua vida: o rock “Agito e Uso”.
No álbum Angela Ro Ro, “Agito e Uso” era a primeira do lado B, face do LP dedicada às faixas mais agitadas em forma de rock, balada e blues. Com arranjos elaborados por Angela e Antônio Adolfo, o repertório do primeiro disco da cantora baseava-se nas experiências de vida da compositora que até seus 29 anos já tinha agitado e muito. Carioca de Ipanema, Ângela Maria Diniz Gonsalves estudou piano clássico até os 15 anos, encerrou a vida escolar no terceiro colegial e caiu de boca numa vida ‘on the road’ no Brasil e na Europa. Depois de passar curta temporada em fazenda comunitária na Bélgica, Angela mudou-se para Londres onde cantou e tocou em ‘pubs’ e conheceu Caetano Veloso, que enfrentava o exílio e preparava o álbum Transa. Caetano ouviu Ro Ro tocar uma gaitinha ‘blue’ numa festa e a convidou para soprá-la no dueto vocal dele com Gal Costa na faixa “Nostalgia”. Segundo Angela Ro Ro, a participação caiu do céu pois rendeu-lhe algumas semanas do aluguel e duas calças de veludo.
Do ‘Swinging London’ no começo dos anos setenta até o final daquela década, Angela Ro Ro criou fama local na Zona Sul carioca tocando seu piano, cantando suas baladas e metendo-se em confusões. Alguns dos entreveros viraram música: “Agito e Uso” foi escrita depois da compositora ter brigado com uma garota e empurrado seu carro deixando-o atravessado numa esquina da Visconde de Pirajá; “Balada da Arrasada” foi composta para uma namorada freqüentadora da Galeria Alaska, e “Mares da Espanha”, antes de ser canção dá nome a um motel.
Curtido em ‘uísque e vergonha’, o repertório do primeiro álbum de Angela Ro Ro é baseado em fatos reais, lances da vida de uma moça talentosa que metia medo em muitas gravadoras. Em 1979, incentivada pela onda de novas cantoras-autoras – na qual despontaram Marina Lima, Joana e Fátima Guedes –, a Phonogram comprou a briga e lançou por seu selo Polydor o LP Angela Ro Ro. Reeditado em CD em 2002, esse primeiro item da sua reduzida discografia traz ainda canções como “Amor, Meu Grande Amor”, “Tola Foi Você”, “A Mim e a Mais Ninguém”, “Não Há Cabeça” e “Gota de Sangue”, que encantou Maria Bethânia a ponto de a baiana gravá-la em seu LP Mel, de 1979. Para a sessão de gravação, Bethânia convidou Angela para acompanhá-la, ao piano. O duo trouxe-lhe prestígio. De acordo com Angela Ro Ro, aquela era a segunda vez que a família Veloso a salvava. Outras demonstrações de carinho e reconhecimento por parte de Caetano e Bethânia aconteceram: em 1981, Caetano Veloso escreveu “Escândalo” para Angela; em 1983, Maria Bethânia, em seu álbum Ciclo, lançou e levou ao sucesso a canção “Fogueira”, um dos clássicos daquela que já escreveu “se gosta do medo, não venha comigo / não gosto de quem nunca corre perigo”.
A segunda casa de Eugénia
11/12/2009 | 15H25 | Vilmar Bittencourt em Coluna do Vilmar

A cantora portuguesa Eugénia Melo e Castro chegou a sua segunda casa em 1981 para convidar Wagner Tiso para dirigir seu primeiro álbum. Veio para o Brasil e instalou-se na Rua das Acácias, a mesma na qual Vinicius morou. Assim, dava prosseguimento, concretamente, ao seu caso de amor com a música brasileira. De lá pra cá, mantém colaborações com cantores e compositores da chamada mpb, do pop e da bossa nova, lança em disco parcerias luso-brasileiras, traçando assim um caminho verdadeiramente original no cenário da música popular.
Na entrevista ao TodaMúsica, boa parte dessa originalidade se apresentou. Eugénia comentou faixas dos CDs dedicados a Vinicius de Moraes e Chico Buarque, destacou seus duetos com Tom Jobim e Adriana Calcanhotto e explicou a música popular de sua primeira casa.
Entre os álbuns comentados por Eugénia Melo e Castro estão dois com repertório português: Poportugal mapeia a produção pop lusitana das três últimas décadas do século passado; Paz destaca Eugénia como compositora em canções escritas com parceiros patrícios.
A edição do TodaMúsica com Eugénia Melo e Castro toca ‘’Amor”, canção escrita por Pedro Ayres Magalhães antes de formar o grupo Madredeus; “Canta canta mais”, com piano e vocal de Tom Jobim, e “Paz”, faixa-título composta por Eugénia em parceria com Eduardo Queiroz.
Esta edição vai ao ar 13 de janeiro, quarta-feira, às oito da noite.
Enquanto 2010 não chega, ouça o bônus com trechos da entrevista não incluídos na edição final do programa.
No bônus, saiba como o diretor Augusto Boal, em Lisboa, ouviu pela primeira vez a carta-choro “Meu caro amigo” e descubra como a música brasileira salvou a vida de Eugénia Melo e Castro. Ouça agora!
Veja mais
Acesse a página do Programa TodaMúsica
Curumim gosta de criança
09/10/2009 | 13H59 | Vilmar Bittencourt em Coluna do Vilmar

Boneco Jacaré da Boca Larga. Uma das atrações quando o programa Curumim visitava escolas públicas
“Curumim gosta de criança / Curumim gosta de brincar / Agora Curumim vai embora / Mas logo ele vai voltar”. Esse era o começo do fim de cada edição do programa infantil que a Rádio Cultura AM de São Paulo – atual Cultura Brasil – produziu e transmitiu entre 1982 e 1984.
No ar de segunda a sexta, em horários matutino e vespertino, Curumim era dedicado ao público em idade pré-escolar. Com duração entre 15 e 18 minutos, cada programa baseava-se em pelo menos três conceitos pedagógicos transmitidos por personagens criados por seus diretores e roteiristas Eduardo Weber e Vilmar Bittencourt, este que vos escreve.
Para dar voz às criaturas, a produção contou com a experiência dos veteranos radioatores Deise Celeste e Antônio Leite, com participação de Marco Ortiz. Papagaio Pituca, Repórter Criança, Bicho Imitador, Abelha Abelhuda e toda uma fauna de personagens das historinhas diárias contavam com a doce simpatia da radioatriz e apresentadora Cecília Lemes.
Por meio das histórias, dos quadros e da participação de crianças matriculadas nas escolas municipais de educação infantil, Curumim dava exemplos de conceitos como perto/longe, alto/baixo, curto/longo, sempre sugeridos e supervisionados por pedagogas funcionárias da Secretaria Municipal de Educação, que mantinha convênio com a Fundação Padre Anchieta para produção do Projeto Curumim em rádio e televisão.
Sim, antes de ir para o rádio, Curumim era um programa da TV Cultura que, na década de 1980, já era referência na produção de conteúdo infantil de primeira linha. Porém, produções radiofônicas nesse gênero são sempre um desafio: como cativar audiência de crianças entre quatro e seis anos de idade, sem o apoio da imagem física? Cores, formatos, espaços e planos concretizavam-se na imaginação de cada pequeno ouvinte por meio das elaboradas falas dos personagens e dos inestimáveis esforço e colaboração dos sonoplastas Edson Siqueira, Pompeu Lopes, Zé Rodrigues e Cícero Nunes.
O Curumim da Rádio Cultura durou pouco, mas teve a sorte de sair do ar no auge de sua audiência comprovada pela quantidade diária de cartas de crianças que desenhavam seus personagens e esperavam ouvir seus nomes pronunciados por Cecília que, nessa hora, dividia o microfone com um fantoche que, além de visitar as EMEIs, imitava a voz que Lima Duarte deu a Wally Gator: o Boneco Jacaré da Boca Larga. Uma última confissão: Boneco Jacaré da Boca Larga sou eu.
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